Legitimidade sem permissão: por que as vozes humanistas importam.

  • Data / 11 de fevereiro de 2026
  • By / Colaboradora

AJ Surin é advogado ambiental, constitucional e de direitos humanos, fundador da Humanists Malaysia e um proeminente defensor da liberdade de pensamento, consciência e crença no Sudeste Asiático.


A legitimidade é tratada com muita frequência como algo concedido pelo Estado — seja formalmente (um certificado de registro), legalmente (uma personalidade jurídica) ou simplesmente por meio do selo de aprovação estatal (uma aprovação formal). E sem a permissão do Estado, as pessoas são informadas (seja de forma discreta ou explícita) de que ainda não existem.

O humanismo rejeitou consistentemente essa premissa ao longo da história.

Em todo o mundo (com particular ênfase no Sul Global) e em diferentes culturas e sistemas políticos, a proteção concedida à liberdade de pensamento, consciência e religião ainda é significativamente desigual. Visões seculares, não religiosas e pós-teístas, nesses ambientes, enfrentam obstáculos estruturais que as visões de mundo religiosas ou majoritárias não enfrentam. A espera indefinida por autorização oficial para expressar uma opinião pode, portanto, criar um ambiente de exclusão silenciosa.

Portanto, falar antes de obter permissão formal para tal não é um ato de impaciência. Pelo contrário, é um ato de dever cívico.

É aqui que vemos surgir a importância da legitimidade discursiva. Vozes discursivamente legítimas não se baseiam na presença de autoridade formal ou legitimidade institucional. Em vez disso, são formadas pela força da argumentação pública — especificamente pelas qualidades de clareza, coerência, evidência e consistência ética. As referências utilizadas por essas vozes — dignidade humana, princípios constitucionais e direito internacional dos direitos humanos — servem para estabelecer uma base comum para um discurso público significativo.

Assim, vozes que demonstraram legitimidade discursiva não podem ser facilmente descartadas. Essas vozes fornecem uma base para o diálogo. Elas levam jornalistas a lhes dar atenção. Levam acadêmicos a responder. Levam autoridades a responder (e refutar) em vez de ignorá-las. Por meio desses mecanismos, o próprio processo de raciocínio adquire uma forma de legitimidade.

Isso é exemplificado pelas histórias dos movimentos sociais que posteriormente remodelaram a sociedade — movimentos pelos direitos civis, pelos direitos das mulheres, pela liberdade de crença e pela liberdade de expressão — que, tipicamente, foram inicialmente compostos por grupos sem reconhecimento formal. A legitimidade desses grupos não foi concedida antecipadamente; foi conquistada por meio de sua persistência em se engajar em uma participação pública pautada por princípios.

O registro não precisa ser meramente administrativo. Em alguns países, o registro pode ser atrasado ou recusado com base na ideologia do solicitante. Quando isso ocorre, exigir que a defesa de direitos ocorra após o registro significa que os intermediários decidirão quem tem permissão para participar do diálogo público. Para os humanistas que valorizam o pensamento racional, a ética e a autonomia, tal silenciamento contradiz seus valores.

Portanto, operar abertamente como uma organização humanista sem estar registrada pode constituir uma forma de desobediência civil não violenta. Não se trata de infringir a lei ou causar tumulto; trata-se de opor-se à ideia de que o valor de um ser humano não pode ser validado por um burocrata. Também transmite a mensagem de que participar do debate público não depende de uma autorização. Trata-se, sim, de defender os direitos humanos e usar a razão para fundamentar seus pontos de vista, independentemente de ser ou não reconhecido como um participante legítimo.

Essa postura é coerente com muitos dos princípios fundamentais da Declaração Mínima sobre Humanismo da Humanistas Internacional. Esses princípios incluem o respeito à dignidade humana; o uso da razão e da compaixão; e a defesa dos direitos humanos universais. O fato de esses princípios existirem é irrelevante para a possibilidade de sua implementação. O que importa é que sejam expressos de forma coerente e que seus defensores demonstrem a coragem de defendê-los.

É evidente que tal postura acarreta responsabilidade. Se os humanistas não possuem a autoridade de incorporação, devem agir com cautela e precisão ao se expressarem. Sua linguagem deve ser ponderada e suas afirmações, fundamentadas em evidências. Contudo, essas limitações muitas vezes conferem maior credibilidade à defesa humanista. Ao garantir que a defesa seja baseada no mérito, e não no privilégio, os humanistas podem atuar de maneira íntegra.

Podem surgir críticas na forma de "quem vocês representam?". A resposta a essa crítica é simples: os humanistas defendem ideias baseadas nos aspectos comuns da humanidade.
Argumentos válidos não precisam de permissão para serem ouvidos.

No fim das contas, a legitimidade se revela pela forma como os outros reagem. Isso inclui quando as pessoas se envolvem seriamente com novas ideias. Quando não há mais espaço para o silêncio. Quando a conversa muda de rumo.

O humanismo sempre foi apresentado dessa maneira; não pedindo permissão para ser incluído no debate público, mas sendo claro o suficiente para que o mundo preste atenção.

Num mundo onde a liberdade de consciência ainda está ameaçada, as vozes humanistas não registradas não são um problema a ser resolvido. Elas nos lembram de uma verdade mais profunda: ideias baseadas na razão, na dignidade e nos direitos humanos não esperam a sua vez.

Foto por P on Pexels 

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